La piel que habito

La piel que habito

Almodóvar disse que faria um filme de terror sem gritos ou sustos e bem.. Ele fez com excelência. “A Pele que Habito” é sem duvidas um filme incrível, complexo e que merece ser assistido varias vezes, no meu caso, quatorze vezes.  Pois bem, vamos ao filme – spoilers.

Robert Ledgard é um cirurgião plástico que tem sua vida cercada por tragedias, a que marca o inicio de sua obsessão pela criação da pele perfeita é o suicidio de sua esposa adúltera, que havia sofrido um acidente de automóvel, que a carbonizou, o acidente acontece enquanto ela tenta fugir de Robert ao se apaixonar por Zeca. Robert e Zeca eram irmãos, mas não sabiam, filhos da governanta de El Cigarral. A mulher de Robert sobrevive e ele fica obcecado em devolver para sua esposa a normalidade e então se dedica a construir a pele perfeita, misturando DNA humano com suíno, capaz de resistir à dor e até a insetos. Ela é reconstruída num ambiente privado sem buganvília e lux, tal como o monstro de Victor Frankenstein. Tudo que pudesse refletir sua imagem foi retirado da casa, até que em uma manhã ela se aproxima da janela ao ouvir sua filha Norma cantar e vê sua imagem no vidro. Assustada com tamanho horror que havia se tornado se joga da janela aos pés de sua filha.

Desde a morte da mãe Norma precisa de acompanhamento psiquiátrico e quando surge a oportunidade de ressocialização da filha, assistida por muitos remédios, Robert não hesita e a leva a um casamento. Norma ainda se encontra numa redoma emocional infantil, mas consegue uma boa socialização com os mais jovens da festa. Robert observa sua filha o tempo todo, mas comete um pequeno descuido e ela vai para o jardim com um dos rapazes que havia conhecido, Vicente. A conversa dos dois é um tanto perdida, Vicente já drogado e Norma contanto sobre seu quadro clinico, e de repente já estão num alto nivel de excitação, ele imagina que ela está ciente do está prestes a acontecer, e ensaia a penetração. Norma encontra-se totalmente perdida até que sente o ato começando e começa a gritar e bater no rapaz. Vicente não força o sexo, mas reage tapando sua boca e dando um tapa em seu rosto, que a deixa desacordada.

O que marca o desejo de vingança de Robert é esse exato ponto, onde encontra sua filha desacordada e com as roupas mal colocadas. Norma acorda nos braços de seu pai e num surto psicótico acha que ele é o autor de sua violência. Ela vai para uma clinica e os médicos recomendam que Robert não visite tanto sua filha, pois eles não estão seguros de sua total inocência sobre o caso. Dias depois, Norma se joga da janela da clinica. Robert motivado por ódio e vingança dá inicio há uma serie de terror psicológico, rapta Vicente e vive como o vingador e transforma sua vingança em cobaia humana. O primeiro passo é a transgenia, a transexualização do corpo de Vicente, que vai se transformando em Vera. Ledgard vai construindo aos poucos a sua obra de arte, e a cria com a imagem de sua esposa. O criador então se apaixona pelo mostro e molda suas expectativas pigmaleônicas. E ele só se dá conta que suas esperanças não são efetivas, de fato, quando a obre se vira contra o criador.

O tema estupro volta no filme quando, depois de sua transformação de Vicente para Vera está quase completa, Zeca volta fugido de um crime e pede abrigo para sua mãe, e então ele vê que sua amante ainda está viva. Ele não pensa duas vezes e vai atrás dela como um louco e imagina que poderá forçar o doutor a fazer uma cirurgia em seu rosto criminoso e para isso usaria Vera como refém, antes disso acontecer ele a estupra no meio da casa e Robert chega no exato momento em que ele está em cima dela. Confuso, olha para a mulher que indica extremo desespero e atira em Zeca. A relação de confiança entre Vera e Robert tem seu começo. Como um casal a impressão que se tem e que Vicente não está vivo embaixo da pele de Vera, pois ela consegue manipulá-lo e vai ganhando confiança e suprindo as necessidades de Robert e ele se convence que o Pigmaleão está vivo e soberano, pensando nas reais possibilidades de uma vida harmonioza ao lado de sua criação. No entanto, o Frankenstein dentro de Vicente vem a tona quando em uma dos momentos de carinho entre os dois, o doutor acaba morto sobre sua cama.

Foi lançado em 2011 e é uma adaptação do livro Tarantula, do escritor francês Thierry Jonquet, que teve seu roteiro reescrito nove vezes. A atuação de Antonio Banderas é impecável!, duas ou três situações parecem o tirar da sua zona de conforto e calmaria, o que gera um mal estar. Elena Anaya também faz uma ótima atuação como Vera e causa um desconforto estranho sobre como ela mantém-se diante de tudo o que acontece, diferente de Vicente que deixa suas emoções fluírem com muita naturalidade e realidade. Fato é que a violência é o horror estão presentes nos cenários e na natureza dos objetos, é algo angustiante, mas que leve o filme a me causar mais arrepios do que eu imaginava. Um incrível suspense.“La piel que habito” faz parte da minha lista de filmes “Dignos de epopeia” e é de longe um dos meus preferidos.

“Dignos de epopeia: #1 – La piel que habito.”

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